Urubu de fato, Leão por direito

De Ricardo Mattoso de Souza

07/07/2025

 

Tem um assunto que não tem como um flamenguista como eu deixar de falar, tem que dá pitaco... A Copa União de 87, o nosso tetracampeonato brasileiro de futebol dá o que falar até hoje. Pois, inegavelmente temos dois campeões: um de campo e outro de tribunal. Mas afinal... quem dá legitimidade a conquista de um clube de desportos?

Não há maneira melhor de começar a falar desse assunto do que escalando o time titular do Flamengo naquele campeonato. Me emociono, não sabia o momento histórico que estava vivendo, era meu primeiro ano como torcedor, eu tinha 8 anos de idade, já sendo campeão nacional com uma das melhores formações da história do clube. Então, vamos lá, na última linha nós tínhamos: Zé Carlos, Jorginho, Aldair, Leandro e Leonardo; no meio: Andrade, Aílton, Zinho e Zico; no ataque: Renato Gaúcho e Bebeto. Apenas dois jogadores desse time não disputaram copas do mundo, quatro foram campeões. Resumindo: UM TIMAÇO! Como esse time não é o campeão? Pois é, tem gente que trabalha no Brasil para tudo dá errado; e o pior é que são competentes nisso.

O campeonato brasileiro já tinha um histórico de desorganização, mas em 1986 a lambança foi grande. Um campeonato com impressionantes 80 clubes, divididos em grupos e com regras de classificação bizarras. É óbvio que ia dá merda. Alguns clubes acionaram a justiça comum por se sentirem prejudicados ou por simplesmente não saberem perder, o Vasco foi um desses, só não sei por qual motivo... é bom lembrar que Eurico Mirando já era um dirigente vascaíno (rsrsrs). Outro carioca que arrumou problema foi o Botafogo, coincidência ou não, estava entre os rebaixados (kkkkk), o clube da estrela solitária conseguiu junto ao STJD permanecer na divisão de “elite”, precedente que levou vários outros clubes a seguir o mesmo caminho e obter o mesmo êxito. Resultado: quase melou o campeonato que chegou ao final com o São Paulo campeão. Dessa treta toda é que foi fundado o Clube dos 13 (e quem era o presidente? Eurico Miranda), com os maiores clubes do país como membros; que em conjunto com a CBF organizaram a Copa União, não satisfeitos com a lambança de 86, fizeram uma cagada ainda maior em 87 (desculpem o palavreado, é que tem coisa feia que não dá para descrever de um jeito bonitinho).

A Copa União foi organizada com trinta e dois clubes divididos em dois módulos (verde e amarelo), observando a composição de cada um podemos verificar que o módulo verde era uma espécie de primeira divisão, tinha os integrantes do Clube dos 13 e mais três convidados. Pois bem, o regulamento dizia que os dois primeiros de cada módulo disputariam um quadrangular final para decidir o campeão. Uma bizarrice neste caso, porque está entre os dois primeiros do módulo verde era, obviamente, bem mais difícil que no módulo amarelo. Na minha humilde opinião é como colocar o 1° e o 2° colocado para disputar uma semifinal com o 17° e o 18°, não faz sentido. Com o campeonato já em andamento os dirigentes do Clube dos 13, que talvez tenham percebido a besteira que fizeram, decidiram mudar as regras do jogo. Os dois primeiros do módulo verde iriam disputar a final e o vencedor seria o campeão brasileiro. O Flamengo venceu o Inter na finalíssima, os dois se recusaram a jogar as finais com Sport (“17º”) e Guarani (18º), perderam por WO e o Sport foi oficialmente considerado o campeão brasileiro. A cagada estava completa, a disputa pela Copa União foi parar na justiça comum e o processo só chegaria ao fim após 31 anos, em 2018, com o Sport sendo declarado campeão pela justiça brasileira. Decisão inconteste, pois juridicamente não poderia haver outro posicionamento uma vez que o regulamento original previa o cruzamento entre os dois primeiros de cada módulo e a mudança foi realizada oficiosamente e à revelia, ou seja, sem que todos os envolvidos concordassem.

Infelizmente, essa questão que tumultuou não apenas o campeonato brasileiro de 1987, mas tantos outros, é um traço da nossa cultura; é recorrente na história do Brasil a criação de regulamentos e outras normas que não são aplicáveis ou que não representam sua finalidade moral. De modo, que o desrespeito as mesmas é frequente e compromete a credibilidade dos mais diversos acordos realizados em nossa sociedade. O futebol brasileiro é craque em realizar desacordos, uma pena.

Mas, afinal... quem é o campeão brasileiro de 1987? Com todo respeito aos órgãos de justiça mas como flamenguista eu tenho quase quarenta títulos na carreira de torcedor e em nenhum deles foi a justiça que emitiu o diploma de campeão. No final de tudo, não faz a mínima diferença a decisão judicial sobre essa questão. Não à toa, em 2019, quando o Flamengo foi campeão brasileiro, logo após a decisão do STF, não só a CBF assim como a mídia em geral se referiu ao Mengão como heptacampeão e hoje depois do título de 2020, todos se referem ao Mais Querido como octacampeão brasileiro de futebol. Definitivamente, o urubu é campeão de fato e o Leão é por direito.